Brasil, um país que envelhece a passos largos
Todas as estimativas demográficas mensuram que o Brasil segue a passos largos para virar um país em que os idosos serão uma parcela mais numerosa do que dos jovens. Os estudos e indicativos feitos pelo IBGE apontam que em 2060, o percentual da população com 65 anos ou mais de idade chegará a 25,5% (58,2 milhões de idosos), enquanto em 2018 essa proporção é de 9,2% (19,2 milhões). Já os jovens (0 a 14 anos) deverão representar 14,7% da população (33,6 milhões) em 2060, frente a 21,9% (44,5 milhões) em 2018.
A população brasileira manteve a tendência de envelhecimento dos últimos anos e ganhou 4,8 milhões de idosos desde 2012, superando a marca dos 30,2 milhões em 2017, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Características dos Moradores e Domicílios, divulgada hoje pelo IBGE.
Em 2012, a população com 60 anos ou mais era de 25,4 milhões. Os 4,8 milhões de novos idosos em cinco anos correspondem a um crescimento de 18% desse grupo etário, que tem se tornado cada vez mais representativo no Brasil. As mulheres são maioria expressiva nesse grupo, com 16,9 milhões (56% dos idosos), enquanto os homens idosos são 13,3 milhões (44% do grupo).
A expectativa de vida atual é de 76,2 anos na média entre homens e mulheres e poderá chegar a 81 anos em 2060. O estudo indica que as mulheres continuarão vivendo mais do que os homens. O indicador feminino, atualmente em 79,8 anos, chegaria a 84,2 anos; já o sexo oposto passaria de 72,7, em 2018, para 77,9, em 2060.
Especialistas observam que a tendência de envelhecimento da população nos últimos anos decorre tanto do aumento da expectativa de vida pela melhoria nas condições de saúde quanto pela questão da taxa de fecundidade, pois o número médio de filhos por mulher vem caindo. Esse é um fenômeno mundial, não só no brasileiro.
O poder econômico e político dos idosos no Brasi aumenta a cada dia
Pelo menos 10,8 milhões de brasileiros dependem da renda de idosos aposentados para viver. Só no último ano, o número de residências em que mais de 75% da renda vem de aposentadorias cresceu 12%, de 5,1 milhões para 5,7 milhões.
O estudo feito pela LCA Consultores considera domicílios onde mora ao menos uma pessoa que não é pensionista ou aposentada, e que abrigam um total de 16,9 milhões de pessoas, incluindo os próprios aposentados.
Porém, esses números de dependentes são muito maiores se levarmos em conta cadeias econômica que as aposentadorias criam principalmente nos pequenos e médios municípios brasileiros, cujo orçamento depende dos gastos dos milhões dos beneficiários da atual Previdência Pública.
Dados de 2017: em 4.101 dos 5.570 municípios brasileiros avaliados (73,60%), o volume de pagamento de benefícios previdenciários efetuados pelo INSS – Instituto Nacional do Seguro Social supera o FPM – Fundo de Participação dos Municípios.
Entre os anos de 1988 e 2017, a quantidade de benefícios pagos pela Previdência Social aumentou 336,23%, passando de 11,6 milhões para 34,5 milhões de beneficiários. Segundo o IBGE, para cada beneficiário da Previdência Social há, em média, 2,5 pessoas beneficiadas indiretamente. Assim, em 2017, a Previdência beneficiou direta e indiretamente 120,5 milhões de pessoas, ou seja, 57,57% da população brasileira.
Os idosos já representam 18,6% do eleitorado, ou 27,3 milhões de votos, enquanto que os jovens, de 16 a 24 anos, somam cinco milhões a menos: são 22,4 milhões ou 15,3% dos aptos a votar em outubro. Essa diferença é capaz de definir uma eleição. A mudança demográfica do eleitorado vem sendo percebida desde 2014, quando os dois grupos praticamente ficaram empatados no peso que têm nas urnas. Naquele ano, jovens representaram 16%, enquanto eleitores com 60 anos ou mais somaram 17%.
Preconceitos servem para diminuir o papel do idoso na sociedade
Como visto, os idosos no Brasil atualmente concentram tanto a capacidade econômica quanto a capacidade política e social e caminham para ser o grupo mais importante do país nos próximos 40 anos. Apesar disso, o que ainda se nota é a prevalência de um retrato negativo, e estereotipádo na sociedade, como na televisão e mídias sociais.
Estes últimos se tornaram um espaço do ódio para atacar principalmente setores vulneráveis, como idosos, lgbts, negros, etc. Além disso, a falta de uma política públíca mais consistente e contínua, e a negligência das empresas privadas em recusar a empregar o trabalhador acima dos 60 anos, também são resultados dessa visão negativa sobre a terceira idade em nosso país.
Os estereótipos negativos sobre os idosos, segundo a psicológa, Beca Levy, da Universidade de Harvard “podem ter uma probabilidade particular de persistência porque eles frequentemente se referem à debilitação física e cognitiva, que tende a ser percebida como um precursor da morte, com um senso de pressentimento baseado na cultura ( Becker, 1997 ; Levy & Banaji, 2004 , Nelson, 2005 ).
É provável que essa percepção seja amplificada pelo reconhecimento de que os estereótipos negativos da idade poderiam descrever o futuro da pessoa: os jovens acabarão envelhecendo, se viverem por tempo suficiente – uma expectativa que pode ter aumentado ao longo dos anos com períodos de vida mais longos. Consequentemente, estereótipos de idade negativos podem preencher uma necessidade sentida por indivíduos mais jovens de se distanciarem de indivíduos mais velhos.”
6 estereótipos negativos sobre idosos na mídia tradicional e nas redes sociais
1) Envelhecer não é condição de demência, é um direito.É muito comum verificar nos noticiários e até mesmo nas falas de especialistas que a demência é uma condição natural da velhice. Isso não é verdade. Diversas teorias sobre o envelhecimento desenvolvidas ao longo dos últimos 40 anos procuraram observar que a velhice é um processo da condição humana, como o desenvolvimento da infância e da juventude também o são, e também social.
Os problemas decorrentes da idade podem ter suas raízes fundamentadas desde a falta de apoio no convívio social, perda do poder aquisitivo e falta de acesso às políticas públicas. Essas situações também são observadas em diferentes fases da vida de um ser humano em não apenas na parte idosa. É obvio que a maturidade revela o desgaste do organismo físico, porém, é possível manter-se saudável e lúcido até o fim da vida.
Desde 2003, está em vigor O Estatuto do Idoso que regulamentou diretios para garantir um envelhecimento mais digno, justo e humano, com o envolvimento dos poderes públicos, dos familiares e dos próprios idosos. O documento é a base que estabeleceu uma série de artigos fundamentais a essa parcela da população que devem ser de conhecimento da sociedade e principalmente dos profissionais envolvidos com o temos, inclusive os da comunicação. Entre os principais estão:
Artigo 9º – É obrigação do Estado, garantir à pessoa idosa a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de políticas sociais públicas que permitam um envelhecimento saudável e em condições de dignidade.
Artigo 10 – É obrigação do Estado e da sociedade, assegurar à pessoa idosa a liberdade, o respeito e a dignidade, como pessoa humana e sujeito de direitos civis, políticos, individuais e sociais, garantidos na Constituição e nas leis.
Artigo 14 – Se o idoso ou seus familiares não possuírem condições econômicas de prover o seu sustento, impõe-se ao Poder Público esse provimento, no âmbito da assistência social.
Artigo 20 – O idoso tem direito a educação, cultura, esporte, lazer, diversões, espetáculos, produtos e serviços que respeitem sua peculiar condição de idade.
Artigo 26 – O idoso tem direito ao exercício de atividade profissional, respeitadas suas condições físicas, intelectuais e psíquica.
Artigo 29 – Os benefícios de aposentadoria e pensão do Regime Geral da Previdência Social observarão, na sua concessão, critérios de cálculo que preservem o valor real dos salários sobre os quais incidiram contribuição, nos termos da legislação vigente.
Artigo 33 – A assistência social aos idosos será prestada, de forma articulada, conforme os princípios e diretrizes previstos na Lei Orgânica da Assistência Social, na Política Nacional do Idoso, no Sistema Único de Saúde e demais normas pertinentes.
Artigo 37 – O idoso tem direito à moradia digna, no seio da família natural ou substituta, ou desacompanhado de seus familiares, quando assim o desejar, ou, ainda, em instituição pública ou privada.
Artigo 39 – Aos maiores de 65 (sessenta e cinco) anos fica assegurada a gratuidade dos transportes coletivos públicos urbanos e semiurbanos, exceto nos serviços seletivos e especiais, quando prestados paralelamente aos serviços regulares.
Artigo 15 – É assegurada a atenção integral à saúde do idoso, por intermédio do Sistema Único de Saúde – SUS, garantindo-lhe o acesso universal e igualitário, em conjunto articulado e contínuo das ações e serviços, para a prevenção, promoção, proteção e recuperação da saúde, incluindo a atenção especial às doenças que afetam preferencialmente os idosos.
2) Ser velho não é sinônimo de abandono e descarte.
A questão do abandono na velhice é explorada pela mídia como resultante de um quadro social e de construção de imagem a partir de preconceito que alia o velho como coisa a ser descartada, trocada por um objeto novo como é tratado na propaganda tradicional.
Essa situação dinâmica de uma sociedade de “ descarte”, significa mais do que jogar fora bens produzidos mas, segundo o David Harvey, descarta valores, estilos de vida, relacionamentos estáveis, apego as coisas, edifícios, lugares, pessoas e modos adquiridos de agir e ser.
O abandono humano no Brasil é recorrente e parece estrutural da própria sociedade. Essa situação atinge tanto a idosos como também crianças e adolescentes. A mídia tem um papel fundamental para informar e esclarecer a opinião pública no sentido de buscar um novo entendimento que vise uma sociedade mais justa, inclusiva e solidária para todos.
Basta procurar nos dicionários os sinônimos de velho e velha que encontraremos termos depreciativos como acabado, corroído, desgastado, obsoleta, decrépita, naturalizando essa condição como algo desprezível e desqualificado.
3) Velhice não significa o fim da vida sexual, nem recomeço sem prevenção.
Com o crescimento da população idosa em todo mundo, a indústria farmacêutica também buscou novos medicamentos que não fossem apenas utilizados para combate às doenças e enfermidades.
Foram feitos produtos que proporcionaram uma sexualidade mais ativa, porém também houve um processo do aumento do número de doenças sexualmente transmissíveis, como a AIDS em idosos.
O papel da mídia nesse sentido é fundamental tanto para ajuda nas campanhas de prevenção, como também para a quebra de tabus que envolvem a sexualidade dos velhos, muitas vezes negada e desprezada pela sociedade que utiliza corpos jovens como referência de uma atividade sexual correta e aceitável.
4) O preconceito alimenta a cadeia de violência contra o idoso.
A velhice tratada como sinônimo de demência, incapacidade, perda de vitalidade e sexualidade, coisa ultrapassada, retorno a uma condição infantil, pode ser base para a violência contra os idosos, que tem aumentado consideravelmente em todo o país em conformidade com o aumento da população idosa para as próximas décadas. Essa construção social produz uma imagem de que os idosos são objetos naturais dos diversos tipos de violência, que vão desde a questão física até o abandono, dilapidação do patrimônio, extorsão e ameaças.
A psicológa Becca Levy, da Universidade de Yale, aponta quatro frentes que poderiam ser trabalhadas pela sociedade, que também deve incluir a mídia, para atenuar o preconceito contra os idosos:
- Saúde: avanço dos tratamentos preventivos e medicamentosos possibilita aumento da longevidade para parcela cada vez maior da sociedade, e isso seria um atenuante ao preconceito. Por isso, esse é um tema que deve ser difundido e acessado pela sociedade. Levy porém alerta que o lado negativo desse quadro foi o surgimento da indústria multimilionária da imortalidade que pretende vender a ilusão de que os avanços médicos e de produtos cosméticos poderão impedir a finitude da vida.
- Convívio intergeracional: Pessoas de faixas etárias diferentes devem ser estimuladas a conviverem entre si. Cada uma tem conhecimentos e experiências diferentes para compartilhar e esse contato pode ser muito rico.
- Legislação :O aumento da expectativa de vida demanda ajustes nas leis, para que idosos continuem garantindo seus direitos. Esses ajustes possivelmente vão ajudar com que a terceira idade mantenha-se ativa na sociedade, sendo mais integrada na mesma. o Estatuto do Idoso tipifica uma série de crimes. A lista é grande: vai da discriminação da pessoa idosa a deixar de prestar assistência, do abandono dos mais velhos em hospitais e instituições de longa permanência à exposição deles a perigo que ameace a integridade e a saúde.
- Ambiente Social:Assim como já acontece com outros grupos minoritários, como negros mulheres, lgbts, entre outros, os idosos também necessitam organizar-se como grupo de pressão para fazer valer seus direitos, através da difusão de informações, e a busca de mais direitos e garantias
5) Velhice como difusor de ódio nas redes sociais ( o caso do vovô do slime).
Nilson Izaias era um tranquilo senhor de 72 anos, aposentado, e que encontrou nas redes sociais, como ele mesmo disse, um espaço para atenuar sua solidão.
Começou filmando seu dia-a-dia em um canal do You tube coisas triviais como o café matinal e as frutas que davam na sua chácara. Um certo dia resolveu fazer o slime, uma espécie de gosma que adquire variadas formas e que virou febre entre as crianças.
Após tentativas frustradas conseguiu o feito e virou um fenômeno nas redes sociais. Foram mais de 9 milhões de visualizações do tento vitorioso.
Porém, o que deveria ser motivo de comemoração tanto para ele quanto para seus seguidores, virou em poucos dias uma campanha de ódio e perseguição contra seu Nilson. Foi acusado, sem qualquer prova, de pedofilia quando ainda trabalhava em uma escola pública.
Bastante abalado, foi ameaçado e jurou fechar seu canal no YouTube. O que o salvou foram justamente seus milhões de seguidores que o apoiaram e a própria atitude do aposentado que não se escondeu e enfrentou as Fake News com sua habitual sinceridade.
A história do slime feito por um aposentado representa o ônus e o bônus do uso das redes sociais. De um lado efetivamente trouxe alegria e satisfação como antídoto para solidão e a falta de relacionamento, porém despertou o ódio gratuito em pessoas que não suportam que determinadas parcelas da sociedades, como idosos, negros, gays, mulheres, possam desfrutar de situações prazerosas.
Seu Nilson continua com sua jornada no Youtube após o temporal de ódio do qual foi vítima. Começou com apenas 600 seguidores, hoje atinge mais de 4,7 milhões.
6) Ser velho não significa estar ultrapassado, nem desempregado.
Segundo estudos da The International Longevity Centre, da Grã Bretanha, pessoas que já passaram por várias fases da vida e gastam menos tempo com atividades que exigem dedicação, como criar filhos ou buscar formação, acabam sendo mais comprometidas com o trabalho, além de mais rápidas e seguras para tomar decisões.
Porém, em levantamento feito pelos analistas do Google, a maior plataforma de busca do mundo, foi revelada que “embora as empresas reconheçam que a experiência traz vantagens, ainda são poucas as que apostam suas fichas nos benefícios da troca entre mais velhos e mais novos.
“Essa realidade não impede os sêniores de usarem a tecnologia para encontrar oportunidades de trabalho. O uso das buscas online por emprego para os mais velhos aumenta ano a ano.” Desde 2015, houve aumento de mais de 30% ao ano de busca por empregos para idosos na plataforma de busca. E entre os períodos 2016 e 2017, período do aprofundamento da crise econômica no país, “quase duplicaram” a busca por trabalhos nessa parcela.
Segundo o Ipea, metade da força de trabalho no Brasil terá mais de 50 anos.Uma alternativa muito cogitada por esta parcela da população são os negócios próprios. Segundo o estudo do Serasa Experian de 2018, uma empresa brasileira tem 24% mais chance de ser saudável se tiver sócios com mais de 60 anos. Além disso, entre 2002 e 2014, o número de empreendedores no Brasil cresceu 56% entre pessoas desta faixa de idade.
“A tecnologia está ajudando as pessoas a se preparar para uma velhice com qualidade de vida. As questões e preocupações que surgem com a longevidade ficam claras ao percebermos seu aumento nas buscas.”
Conclusão:
O Brasil está envelhecendo muito rapidamente. Porém, observamos que ainda faltam muitas iniciativas para que os idosos tenham seus direitos respeitados e garantidos. Em poucas décadas essa população irá superar aos dos mais jovens e de crianças. Porém, sua importância econômica e política já alcança patamares substanciais, mas ainda não suficientemente para conquista das reivindicações necessárias.
Isso tem a ver principalmente com a carga de preconceitos e estereótipo que estão ainda subjacentes na população e que são fortalecidos por uma cobertura enviesada por parte da mídia tradicional e também pelas mídias sociais.
Portanto, é fundamental que o reconhecimento do papel dos idosos vem se transformando em nosso país e que é necessário acompanhar esse processo diante da nova realidade com seriedade, informações corretas e que passem longe das imagens negativas
Fontes:
Harvey, David, A condição Pós-Moderna
Clique para acessar o estatuto_idoso2edicao.pdf
https://academic.oup.com/gerontologist/article/57/suppl_2/S118/3913371
https://www.youtube.com/results?search_query=seu+nilson+slim
https://canaltech.com.br/redes-sociais/a-saga-do-vovo-do-slime-quem-e-o-senhor-que-tem-tanto-amor-e-odio-no-youtube-132359/
https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/vida/noticia/2014/12/Redes-sociais-melhoram-o-bem-estar-e-combatem-isolamento-da-terceira-idade-4662116.html
https://www.minhavida.com.br/saude/temas/demencia
http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2019-06/numero-de%20denuncias-de-violencia-contra-idosos-aumentou-13-em-2018
Abandono de criança é o maior em 4 anos
http://www.blog.saude.gov.br/index.php/promocao-da-saude/53673-sexualidade-na-terceira-idade
https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2018/03/25/interna_ciencia_saude,668253/numero-de-idosos-com-hiv-no-brasil-cresce-103-na-ultima-decada.shtml
https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/06/15/aumentam-as-denuncias-de-violencia-contra-os-idosos.ghtml